top of page

MANIFESTO

REGISTROS AUDIOVISUAIS DE MARGENS OCUPADAS

O cinema chega em nosso país no ano de 1896, oito anos após o “fim” da escravatura no Brasil, oito anos após a rejeição organizada, planejada e cruel aos nossos ancestrais. Pessoas que não tiveram a chance de ver e muito menos registrar suas histórias. Negro não lê, não fala, não pensa, negro não foi gente e tudo cuidadosamente articulado para que os campos aristocráticos não nos pertencessem, são poucos os registros do negro (já marginalizado) em telas. Mesmo que o cinema dê início a uma revolução artística e cultural global, ainda assim não cabia a nós a possibilidade de minimamente pensar por si, estávamos a décadas de atraso num tempo que não existia.

O cinema, assim como todos os setores da nossa sociedade, foi feito de um conjunto de “ontens”, tudo é no passado e pouco nos sobrou para o futuro, até o passado.

Ainda que o cinema independente de Glauber Rocha tenha movido e mudado tudo, dando fôlego pro início de um novo mundo, um CINEMA NOVO, ainda assim o marginalizado tinha pouco espaço. Produções comumente chamadas de Filmes B, disputavam recursos, bilheteria e público com as pornochanchadas e filmes feitos com supervisão do governo.

​O marginalizado e propositalmente atrasado socialmente, sempre precisou sobreviver e emergir das ânsias para que pudesse ter a possibilidade de falar, aprendeu a fazer arte com poucos recursos e o audiovisual das margens foi tornando-se sinônimo de gambiarras e improvisos.

No fim da década de noventa e início dos anos dois mil essa distância, um verdadeiro limbo de quase cem anos de atraso, começa a diminuir gradativamente, mesmo com muito esforço, câmeras digitais começaram a aparecer nos aniversários e festas do bairro, produtoras de garagem fazem cópias de VHS para Dvds e a internet aos poucos faz com que o acesso a informação fosse algo possível.

Mas para a periferia o ponto de virada foi a tão temida pirataria, dvs de banquinhas, filmes gravados da tela de cinema com baixa qualidade de som e imagem desafiam a ordem cinematográfica elitizada e pela primeira vez na história estamos vivendo a mesma época. O filme em cartaz no cinema com custos elevados, em poucos dias já estava disponível na feira de domingo em qualquer quebrada.

As crianças criadas pela televisão, puderam acessar filmes, animes e jogos que antes dependiam de um acervo temporário de empréstimo, as famosas e extintas locadoras. No dia seguinte na aula, no recreio, no caminho de volta pra casa falavam de cinema e com o tempo os aparelhos celulares ganharam câmeras e os filmes, animes e jogos agora poderiam ser reproduzidos e melhor! Encenados. O moleque da quebrada com seu aparelho chines MP6,7,8 , poderia se filmar e ser o como o protagonista de Karate Kid, um vídeo ou outro do dia-a-dia ainda que não fosse chamado assim, era um documentário. Os fatos agora filmados estavam na mão e assim cresce a próxima geração de fazedores de cinema marginal.

Com o tempo o Youtube surgiu como a principal plataforma para que esses realizadores pudessem compartilhar seus filmes, mas pouco foi considerado importante para instituições de acervo e preservação nacional. Nossa história mais uma vez é minimizada, descaracterizada, esvaziada, desconsiderada. Plataformas de redes sociais, mesmo com seus grandes números, podem mudar de donos, deixar de existir e para onde vai todo nosso trabalho?

Criar espaços seguros para que possamos registrar e valorizar nossa história se faz extremamente necessário, preservar é uma forma de existirmos no futuro e garantirmos que nunca mais ninguém nos diga como devemos agir, pensar e ser. Exu lança a pedra hoje e ontem o pássaro cai. Esses dizeres trazidos ano após ano, na voz dos que nunca tiveram espaço, hoje falam por nós. Nossos filmes de quebrada falam de quem veio antes, dos nossos, de nós. Falamos de problemas e eles são muitos, mas principalmente de histórias que não são contadas. Acervos periféricos como a RAMO, são estratégias anticolonialistas, pois se existimos e comprovamos essa existência hoje e para o futuro, eles não nos venceram.

SÃO PAULO - ZS - 18 DE DEZEMBRO DE 2024.

© 2025 - acervoramo.com 

bottom of page